O Mutualismo
Um tubarão chega para mil peixes, mas mil peixes não chegam para um tubarão. A teoria do tubaronismo remonta ao padre António Vieira, esse espírito lúcido do nosso século XVII. Santo António de Lisboa também andou por lá perto uns séculos antes, com as suas prédicas. António Sérgio, o teorizador do cooperativismo português, explicitou-a sem adornos no nosso século XX. A imagem dos peixes e do tubarão, e vice-versa, acarta uma dicotomia, tão antiga quanto a presença do Homem à face da Terra: é o velho problema que divide a grande massa de homens e mulheres de uma minoria de poderosos. Ou seja, a dicotomia entre a insaciedade dos que já têm muito e querem ter mais e muito mais e o desejo de sobrevivência dos muitos milhões de seres que nada têm e contentam-se com pouco, desde que haja paz, paz, paz, muita paz! Vamos, pois, ao tema que destacamos nesta edição: o antigo sistema creditício de essência mutualista das confrarias e irmandades. Não se julgue que o “cooperativismo financeiro” seja uma expressão nova na sociedade portuguesa. Não só não é nova, como velho é o sistema que pretende significar assim como o conceito que dele se tem. O cooperativismo financeiro foi a “tábua de salvação” para milhões de portugueses, sobretudo, entre os séculos XVIII e XIX com a actividade creditícia das confrarias e, depois, com as caixas económicas das associações mutualistas até inícios do século XX. Desenvolveu-se e cresceu em épocas propícias à estupidez e à crueldade, à desumanidade. Foi a resposta solidária dos povos a um sistema dominador e explorador que se mostrava indiferente aos problemas sociais. Esse sistema explorador ainda prevalece e é fomentado pelo grande capital financeiro. Apenas consegue subsistir quanto maiores forem a ignorância, a incultura, a resignação dessa grande massa de gente que se deita e levanta com o crepúsculo para engordar, com lágrimas e suor, esse… “tubarão”, que engole tudo e tudo quer engolir! Ao contrário do grande capital financeiro, que se limita a dar menos em troca de mais, o cooperativismo financeiro desenvolveu-se na base da troca solidária. A tradição mutualista portuguesa demonstra que ninguém tem de penar uma vida inteira para pagar a casa ao banco. Dirão que para tudo se quer capital. Pois que seja: juntem-se muitos cinco euros por mês entre milhares e milhares de contribuintes e formem com ele uma caixa de aforro. Nessa altura, ficará claro que um tubarão sempre há-de chegar para “mil peixes” A chave disto tudo está na mobilização dos potenciais contribuintes para o fazerem com a mesma rapidez com que o fazem para os cofres de certos clubes pedinchões….PL
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
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