.Pedro Leitão
Foi necessário arrasar dois montes para lhes extrair pedra atrás de pedra até à última só para construir o santuário de Porto de Ave. A obra grandiosa teve origem numa velha imagem de Nossa Senhora do Rosário já carcomida e “sem culto e veneração”, que estava “posta a um canto”, como cousa “desprezada”, na igreja matriz de Taíde. A 4 de Outubro de 1730, Dia de Santo António, o cónego da Sé de Braga, Domingos Martins, investido na alta função de Visitador, cirandou pela antiga igreja paroquial daquela freguesia, para corrigir eventuais falhas ou deficiências, como se ali estivessem os “olhos e ouvidos” do arcebispo de Braga, Primaz das Espanhas. Reparou então no estado lastimoso da imagem e até por isso ordenou que fosse enterrada (a imagem fora venerada durante séculos em Taíde, mas foi substituída por uma nova). Um mestre – escola, Francisco de Magalhães Machado, que residia no lugar de Porto de Ave, estava lá e pediu ao cónego Visitador para ficar com ela, “alegando – lhe que ensinava meninos e queria diante daquela venerável imagem rezar com eles ladainhas e orações de louvor das Rainha dos Anjos”. A história é contada, com pormenores, pelo pároco de Taíde em 1758, João Alvares Vieira, nas suas respostas aos inquéritos paroquiais do rei D. José I. Pela descrição do sacerdote ficamos a saber que esse mestre – escola ainda vivia no lugar Porto de Ave no ano de 1758, já o Santuário estava quase erguido e a fama dos milagres espalhada pelas “quatro partes do Mundo”. Pelos vistos, o santo homem, apesar de estar na origem daquele imenso caudal de devotos, não fazia questão de puxar para si os louros, pois as suas… “virtudes agora se ocultam por não ofender sua modéstia” (informação do pároco em 1758)...
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excerto 2
Romaria dos bifes e dos melões. Perdeu – se a tradição de levar o gado ao interior do templo, para agradecer à Senhora de Porto de Ave ter salvo os animais de acidentes. No entanto, mantém – se, durante o dia grande da romaria, a 7 de Setembro, o “estendal” de talhos pelos recintos da festa, além de restaurantes improvisados ao ar livre. Antigamente, no próprio local da romaria, improvisava – se um matadouro, com cortes de carnes à vista de todos os romeiros: os bifes de boi servidos durante a festa eram de todo o gado lá abatido. Seja como for, no domingo anterior, ainda se faz o cortejo dos bois destinados a transformarem - se nos bons bifes que são a atracção da romaria, com a sua venda nos talhos ao ar livre ou nas mesas postas para os saborear...
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Excerto 3
Há nesta freguesia outro lugar, que sendo em outro tempo de muitos poucos moradores, está hoje povoado de tantos e tão magníficos edifícios, que quem os descobre vindo da vila de Guimarães, vê a formosa representação de uma cidade é este lugar de Porto de Ave, hoje conhecido em todas as quatro partes do mundo, porque de todas elas se tem oferecido dons e oblações à Sacratíssima e sempre venerada imagem da Senhora dos Milagres do Porto de Ave. Esta Santíssima imagem foi primeiro venerada muitos séculos na igreja paroquial desta freguesia com título da Senhora do Rosário, mas com as inclemências do tempo em tudo fazem aquela mudança (…) Foi a Sacratíssima imagem envelhecendo de sorte que mandando-se fazer outra nova, foi aquela tirada do altar e foi dali por diante, se não tratada com desprezo, ao menos com esquecimento e descuido.
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Excerto 4
É um primeiro (e pelos vistos único) esboço monográfico sobre o santuário de Nossa Senhora de Porto de Ave. Foi escrito como “fragmento” de viagens, não por um português, mas por um… pintor catalão, Luís Vermell, em 1869. O próprio Luís Vermell confessa - se surpreendido por ninguém até aquela data “em que a sede do ouro tudo explora” ter “escrito ou publicado uma notícia da origem deste tão digno e famoso santuário, nem tão pouco se haja feito descrição alguma dele, nem de sua pitoresca, devota e concorridíssima romaria”. Vermell, cujo texto foi publicado pelas edições “Ave Rara”, faz referências à origem do santuário, aludindo aos factos essenciais da história, que coincidem com as descrições do pároco de Taíde em 1758. Além de descrever as capelas do santuário, o pintor catalão faz uma descrição da romaria de Porto de Ave no século XIX, revelando aspectos interessantes desse tempo. Mostra –se surpreendido “com a imensa multidão de povo que a ele aflui por tantos atalhos e de muitas léguas de distância”. Conta que “tudo eram comitivas cantando e transbordando de saúde e alegria: pena é que, chegando – se ao ponto do rio (Ave) se haja de passar por cima de umas fracas pedras”. Depois de visitar depara – se a “um canto do adro” com “ uma porção de barbeiros que, ao ar livre, fazem a barba e cortam o cabelo aos lavradores”. “Mais além excita o apetite tanta qualidade de variada e boa fruta e excelente pão de Braga”.
Se estiver interessado em saber mais sobre este trabalho especial pode enviar um e-mail para fronteranoticias1@gmail.com
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